Acompanhar uma pandemia em tempo real tem sido uma novidade para mim e para as novas gerações, que nascidas a partir da década de 70, não presenciaram pandemias anteriores. E com a tecnologia do tráfego de informações que temos hoje, informações parciais e resultados preliminares chegaram ao conhecimento da população quase que instantaneamente.
Progresso!Entretanto, há um lado negativo. Como as informações são parciais e não podemos prever o futuro, a situação acaba causando ansiedade e pânico.
As autoridades sanitárias, vigilância epidemiológica e especialistas em doenças infecciosas têm anunciado na mídia por diversas vezes que não há motivo para pânico, mas é nítida a ansiedade demonstrada por estes profissionais, passando a impressão de que estão a esconder alguma informação. É como na Bolsa de Valores: quando algo acontece, os analistas de mercado ficam ansiosos e os investidores acabam entrando em pânico, o que provoca grandes oscilações na bolsa.
Mas afinal, qual o motivo da preocupação dos especialistas diante da nova pandemia?Na verdade, há uma série de motivos que vão se modificando ao longo do tempo, conforme conhecemos melhor este novo vírus.
Há quem diga que toda esta história de pandemia seria apenas uma estratégia de
marketing multimilionária para venda dos antigripais. Eu, particularmente, acredito que os laboratórios que investiram na fabricação de antigripais nunca precisariam de uma grande conspiração para lucrar com isso, pois uma pandemia de Influenza vem sendo prevista há décadas.
É fácil entender, se observarmos que as maiores pandemias do último século foram decorrentes de mutações do vírus Influenza. E como se sabe, o vírus da gripe tem grande facilidade em modificar suas estruturas através de mutações genéticas.
Felizmente, o vírus da gripe que geralmente circula todos os anos durante o inverno pertence a um grupo denominado “grupo B”. Este grupo geralmente sofre mutações muito pequenas e modifica muito pouco sua estrutura, de modo que nosso sistema imunológico (sistema de defesa do organismo) acaba encontrando alguma familiariedade com os vírus que já passaram pelo nosso corpo em invernos anteriores. Por este motivo, a chamada gripe sazonal (ou gripe comum) costuma apresentar sintomas mais brandos e tende a evoluir benignamente na maioria dos casos.
Mas quando os governos do México e EUA notificaram que haviam identificado casos de pneumonia grave possivelmente associada a uma nova variante do vírus Influenza A-H1N1, a Organização Mundial da Saúde imediatamente decretou estado de emergência para conter a circulação do vírus. E o fato correu pela imprensa por todo o mundo em uma velocidade tão impressionante, que quase foi pego pelo radar da Av.Brasil!
Naquele momento, o que perturbava os especialistas era o fato de tratar-se de um vírus do “grupo A” ainda desconhecido. Os vírus do “grupo A”, caracteristicamente, são capazes de sofrer mutações maiores com muito mais facilidade, a ponto do vírus novo ficar tão diferente do vírus original que quase não se pareça mais com ele, pelo menos ao sistema imunológico. E isto significa que se este novo vírus for muito agressivo, nosso organismo pode levar tempo demais para responder contra ele de maneira eficaz. Logo, sendo um vírus pouco conhecido, não sabíamos o quão agressivo ele era.
É perfeitamente plausível que o deconhecido provoque ansiedade, inclusive entre os especialistas. Mas como disse anteriormente, há algumas décadas vinhamos esperando por uma pandemia de Influenza, com estratégias de combate e planos de contensão já bem estabelecidos, e o “estado de emergência” declarado pela OMS era um aviso para que os países membros colocassem o plano em execução.
Entretanto, apesar de uma estratégia já montada, todos ficaram estarrecidos porque foram pegos de surpresa. Afinal, os primeiros casos apareceram no continente norte-americano, enquanto apostávamos que a próxima pandemia de gripe teria origem nos países asiáticos; não só pelas maiores concentrações populacionais do planeta, mas por terem participação importante em pandemias do século passado, além de já terem isolado o temido H5N1 (variante do Influenza A relacionada à gripe aviária) em seu território.
Obviamente não sabíamos com quê estávamos lidando quando tudo começou, mas hoje, vimos que a mortalidade relacionada ao novo H1N1 não tem sido muito diferente de nosso velho vírus sazonal.
Esta informação sobre mortalidade é bastante tranqüilizante, mas significa que o vírus pode estar circulando há muito mais tempo do que estimamos, já que os sintomas e evolução se parecem tanto com os do vírus sazonal.
A preocupação atual não é a mesma do começo da epidemia, mas a despeito das boas notícias em relação ao novo vírus, o desfecho desta pandemia é ainda desconhecido, e tudo que sabemos provém da experiência de pandemias anteriores.
Há uma grande chance de que este novo vírus torne-se apenas mais uma das milhares variantes vírus Influenza, contudo, o H1N1 é um vírus que também pode infectar suínos e aves, que podem servir como reservatórios não humanos, onde é possível que sofram novas mutações, gerando variantes mais agressivas. Na Gripe Espanhola de 1918, por exemplo, foi observado que houve supostamente um período de controle, e no chamado Pós-auge, houve reincidência da doença, com uma letalidade ainda maior.
Mas a Gripe Espanhola foi a pior das pandemias da História mundial, numa época em que a Medicina e Tecnologia eram ainda muito primitivas, os hábitos de higiene em geral não eram tão valorizados, e não havia qualquer experiência em controle de pandemias. Atualmente, temos de fato mais subsídios para controle.
Portanto, não é sensato que a população entre em pânico ou se preocupe com as hipóteses mais pessimistas em relação à pandemia, pois são apenas uma probabilidade dentre várias possibilidades de desfecho. Por outro lado, as autoridades de vigilância em saude e controle de doenças infecciosas têm o dever de estar sempre preocupadas e preparadas para a pior das hipóteses, pois a responsabilidade pelo controle da pandemia recai sobre eles.
Enquanto isso, faça você sua parte:
(1) não entre em pânico;
(2) siga as
orientações dos especialistas e do Ministério da Saúde; e principalmente,
(3) use o bom senso.